4x01 - Açougue
de Maurício Witczak
Esta triste história que
eu vou contar, não é uma invenção completa. Um dia, na hora do jantar, me engasguei, diante de
uma indigesta notícia da televisão: “Homem que tentava ser YouTuber morre
durante roubo de carne. Saiu da internet, direto pro rabecão”. Diante desse fato
surreal, que me apertou o coração, fui pesquisar sobre a vida desse brasileiro
sonhador que, como tantos, pensa em “virar alguém”. Alimentei minha narrativa
com muitos detalhes tristes desse cidadão e deixei meu pensamento e minha imaginação darem
contornos literários a essa história trágica. Enquanto escrevia sobre a vida
desse homem guerreiro e combatente, percebi que essa não é apenas uma parábola
mágica, sobre o quanto a vida é selvagem. É sobre não conseguir impedir que um sonho vire uma obsessão.
Mas é assim, a perversa e violenta competição que nós enquanto sociedade criamos, cujo lema é: “o segundo lugar,
é o primeiro perdedor”.
Uma cobrança cruel, que causa muita dor, em nossa luta para ser e estar. O
sonhador morto, nasceu em um lar desajustado. Seu
pai, sempre alcoolizado, adorava repetir em voz alta:
– Esse menino, não vai dar em nada.
Fica aí só imaginando coisas. Pensa, pensa, pensa, mas não realiza “bulhufas”. Imaginação não
enche barriga, moleque! Você já é quase um homem. Sai dessa terra do nunca e
vem pra realidade. Já tá na hora, de você ajudar a colocar comida na mesa desta casa.
Mesmo
com tantas palavras que lhe castigavam a alma, o menino não conseguia evitar
ter muitas e muitas ideias, que aos poucos foram virando seus sonhos. Achou um
violão quebrado no lixo, o consertou e aprendeu os acordes básicos. Fazia
canções sobre seus ídolos. Ao cantar como Elvis Presley, era sempre ridicularizado por seu
pai e seus irmãos mais velhos. Sua mãe já havia desistido de repreender seu
marido para não
apanhar mais uma vez. O menino teimoso não se intimidava. Na sua fantasia,
queria ser famoso. Gravava suas canções em fitas K7 para um dia poder montar sua banda. Sonhava em
ser um Popstar. O tempo passou, fazendo seu sonho crescer, mas a sequência de fracassos que
essa narrativa ganha a partir de agora justificam seu trágico fim.
Na
adolescência, com a sua banda da escola, não conseguiu nenhum hit emplacar. Um dia precisou aceitar o fim. Era inadmissível aos
outros componentes da banda
terem que fazer um show
sem ter ninguém na plateia. Ele, com seu otimismo de sempre, imaginou
estar ouvindo a voz de Deus, dizendo que ele estava desenvolvendo uma carreira
artística errada. E já que costumava tirar muitos risos de seus amigos, não
teve dúvida: a fama
viria de uma carreira de ator. Algumas apresentações da escola o encorajaram,
mas nos testes que fez para
ser um comediante, virou alvo de chacotas. Levou na esportiva, pensando que
isso havia apenas sido
mais uma piada de Deus. Pegou seu velho violão e passou a tocar em bares. Mesmo quando não
tocava canções autorais, ninguém prestava atenção em suas performances. Foi
então que teve uma ideia: já
com diploma de nível médio, preferiu não entrar para a faculdade. O mundo estava imerso na tecnologia e nessa era da
imagem, com as redes sociais a mil, viu vários anônimos ficarem famosos, com
seus canais virtuais. Tentou, então, ser um youtuber. Investiu todo dinheiro do carro, que usava para ser Uber. Fez mil vídeos, mas ninguém
viu! Tentou de tudo que é jeito aparecer, mas também não se tornou um influencer.
O próximo passo seria
se inscrever em todos os programas de televisão e, mesmo que fosse ridicularizado, estaria tentando
realizar seu sonho. Usou todas as suas facetas artísticas, mas era sempre
considerado um artista mediano. Participou de um reality
chamado “Sou um
perdedor, e daí?”. Finalmente ali estava sua grande chance de se tornar famoso,
mesmo com o título de maior perdedor do Brasil.
Depois de alguns
meses de confinamento, tendo que expor todas as suas desgraças, chegou o grande
dia. Seria revelado ao público, quem era o grande perdedor na vida. Ele tinha a
convicção de que ninguém poderia ultrapassar suas derrotas. Nos bastidores, sua
vitória já era vista como certa. E numa lógica obsessiva, ele imaginava que o
perdedor vencedor ficaria
famoso e, a partir
daí, ele poderia realizar
o que ele pensava
ter nascido para
fazer: Sua arte multifacetada. No mínimo, o perdedor vencedor do reality ganharia um bom prêmio em dinheiro para poder recomeçar. Ele
não via a hora de saber o que seus pais achariam, vendo seu filho na televisão,
finalmente como um vencedor e podendo bancar seus sonhos.
E
lá estavam os cinco finalistas, que já tinham eliminado centenas de candidatos.
O apresentador fez tanto suspense que vários comerciais passaram até o grande anúncio. E como era de se
esperar, ele ficou em segundo
lugar. Não ganhou nada, além de
vaias orquestradas, com direto a cascas de banana e muitas gargalhadas infames.
Falido, acabou indo morar na rua.
Numa noite de
lua cheia, sentindo o cheiro de bife frito, que vinha do restaurante da
esquina, decidiu que iria matar a fome pedindo um pedaço de carne para o açougueiro. Diante
do não, pôs a mão no bolso traseiro para
revelar seus poucos trocados, mas não teve tempo de mostrar. O açougueiro, que
acabara de comprar uma arma, sem nenhuma compaixão, mirou na cabecinha e matou a
sangue frio o
pseudoladrão.
Espalhou seus miolos e tingiu a calçada, com o sangue ralo do nosso perdedor. E
assim morreu nosso sonhador de
plantão, que teve
seu rosto coberto com jornais e papelão. Só o seu primeiro nome foi divulgado.
Triste destino de
quem tanto sonhou e perdeu a vida à toa. Ironicamente, morreu na porta de um açougue chamado
“Carne boa”. Morreu de forma impactante, mas sem ter a vida impactante que quis ter.
Chocante,
sobretudo, por ter finalmente
viralizado na web e se tornado notícia com muitas curtidas. Numa das
páginas da internet com milhões de seguidores, um influenciador, tentando tirar riso dessa
tragédia, estampou a notícia, com total insensibilidade e cheio de uma ironia
sórdida: “Famoso anônimo, que queria ser YouTuberrrr rsrsrs, morreu baleado, na
porta de um açouguerrrrr. KKKKK.” E a postagem, com sua foto e essa frase
perversa, bateu todos os recordes de visualizações. Nosso sonhador morto,
sobrevoando seu corpo, chorou e riu de sua banal fama póstuma. E
o açougue? Ah! O açougue “Carne boa”, ganhou centenas de franquias em todo o
Brasil.
Bruno Olsen
Cristina Ravela
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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