
No
capítulo anterior, Carlito sofre cruéis torturas como prisioneiro da Cuca,
enquanto isso Imã e Drica ajudam Táquio no deslocamento dos habitantes do mundo
devastado para impedir novo ataque e Belchior se esconde o quanto pode da maga.
No
início da caravana, os batedores estão parados um bom tempo, Gualbe espera por
um sinal antes de tomar qualquer atitude. Até que um deles sai da camuflagem e
resolve se aproximar das criaturas desacordadas, logo em seguida o segundo
também se aproxima.
—
Conhece, Zebu?
—
Não, mas parecem muito com o Conde E e a Princesa Macar.
—
Parecem, e agora, o que a gente faz?
Gualbe
também chega no grupo.
—
Então, qual é a razão da parada… eita! Quem são esses aí?
—
Eu e o Melo não fazemos ideia.
—
Tudo bem, Zebu, vá avisar o Conde E, enquanto isso eu e Melo vamos acomodar
eles nas carroças.
Enquanto
isso, na clareira em que Táquio e Cuca estão travando uma batalha oral, a
situação ganhou conotações quase bíblicas. A maga, propôs uma permuta para
Táquio e apresentou seu prisioneiro, bastante depauperado e pendurado com os
braços suspensos por cordas entre dois tukurás alados. A imagem é realmente
desoladora e cruel. Táquio jamais havia presenciado tanta violência nesse
mundo.
Aliás,
um mundo já bastante desfigurado, devido às transformações que os encantos da
Cuca provocavam. Cada emanação sobrenatural deflagrava consequências funestas
no meio ambiente. Era como uma indústria que produzia seus produtos ao mesmo
tempo que mortifica o meio em que está.
Os
tukurás chegam próximo de Táquio para que ele veja com mais clareza de quem se
trata. A pessoa pendurada estava desacordada, mas seu semblante denota grandes
sofrimentos. Apesar de tudo, é perfeitamente nítido que se trata de um jovem
rapaz, as marcas que tem no rosto demonstra que ele sofreu bastante até o ponto
de perder os sentidos.
Táquio
fraqueja por um instante, ainda assim tenta disfarçar o medo que está sentindo.
—
Ele não é de sua raça? — Cuca esbraveja.
—
Sim, é… mas… — Táquio ainda se encontra perplexo.
—
Então, temos um acordo, ou não?
Súbito,
Imã sai de seu esconderijo, gritando furiosa.
—
Sua maga maldita. Solta ele, agora, solta!
Drica
tenta conter a amiga, até Táquio se põe na frente da neta, a segura pelos
braços e a encara seriamente. Imã, está transtornada, mas concorda em se
conter.
—
Olha, não é aquela coisinha esquisita que vocês chamam de Princesa?
—
Não importa, Cuca, a sua guerra é comigo! — Táquio tenta retomar a atenção da
maga.
—
Nós estamos em guerra, Conde E?
—
Sim, você sabe que somos inimigos.
—
Você me dará o que peço?
—
Nos dê um tempo, não sabemos onde o seu rouxinol está. Mas, antes quero fazer
uma exigência?
—
O que você quer?
—
Que você não faça mais mal a esse rapaz. Eu vou localizar e trazer o seu
rouxinol, mas se eu perceber que você continuou as torturas, você nunca mais
verá seu rouxinol.
—
Quando terei meu rouxinol novamente?
—
Amanhã, nessa mesma hora, nesse mesmo lugar.
Cuca
não responde, apenas sorri, volta as costas para Táquio e recua, assim como
todos os tukurás.
Até
o cheiro ameaçador se desfaz. Imã desaba no chão chorando copiosamente, Drica a
abraça com carinho. Táquio se entristece ao deparar com a dor da neta.
—
É tudo culpa minha, Drica. Fui eu quem trouxe o Carlito para cá. Você me
alertou, mas eu não dei ouvidos…
—
Calma, Imã. Não fica assim, os meninos resolveram por si mesmos. Não tem nada
que você pudesse fazer. Quem ia adivinhar que tudo isso ia acontecer? É
impossível.
—
Mas, você me alertou, falou que podia ser perigoso. Agora, olha como está o
Carlito.
Táquio
se abaixa para ajudar a neta a levantar.
—
Espoletinha, escuta o que vou te falar, não importa nada que aconteça ao seu
amigo, todo machucado, toda ferida, fica aqui. O corpo dele está são e salvo,
quando vocês retornarem, nada disso refletirá no outro mundo. No máximo, ficará
algum restinho na memória, mas não haverá nenhuma marca de nada, apenas
lembranças.
—
Vô, o Carlito é um grande amigo, ele é forte e corajoso. Já enfrentou o perigo
para me ajudar. Ele já…
—
Calma, Imã. Você está perdendo o controle. — Drica se preocupa.
Táquio
abraça a neta com força, Imã chora em seu peito, a lembrança do amigo e o
estado em que ele se encontra, não saem da sua mente.
Táquio
pede que um roedor se aproxime e cochicha em seu ouvido. A ordem é simples, o
comandado não perde tempo e se adianta. Táquio chama Drica e pede que leve Imã
para um lugar seguro.
As
lágrimas que encharcam o chão deixam o coração de Táquio mais amargurado.
Apesar do longo tempo ausente do mundo real, ele ainda nutria esperanças de
voltar tornar ao convívio com a família e sua neta. De alguma forma calculava
que as medidas de tempo não seguiam na mesma proporção, por isso não se
preocupou com o passar dos anos. Mas, ao ter conhecimento de que em nosso mundo
já se foram seis anos, compreendeu toda dificuldade que a neta teve.
Quando
se separaram, Imã tinha só oito anos, agora tem catorze, não deve ter sido
fácil para a família. Enquanto ele lutava contra a Cuca para salvar os nativos,
perdeu totalmente a noção do tempo, julgando que haviam passado apenas alguns
minutos.
O
descontrole emocional da Imã é perfeitamente justificável e Táquio se sente
responsável, não pode permitir mais sofrimento, sobretudo de sua neta e amigos,
decidiu tomar uma atitude radical.
Mas,
antes que pudesse se levantar, o mensageiro de Gualbe é anunciado.
O
pequeno guaxinim Zebu, ainda esbaforido, se esforça para falar com clareza.
—
Conde, o Gualbe pediu para avisar que encontramos dois iguais ao senhor lá na
ponta da caravana.
—
Dois? Eles não se apresentaram?
—
Não senhor, eles foram encontrados desacordados. São do tamanho da Princesa
Macar.
Táquio
para alguns segundos para entender a situação. Logo em seguida um curió também
entra no cômodo, porém, não vem sozinho.
—
Olá, senhor Belchior, até que enfim resolveu dar as caras.
—
Olá, Conde E, eu peço mil perdões, mas ainda estava me restabelecendo do ataque
que sofri.
Táquio
olha para o curió.
—
Ele estava encolhido entre alguns filhotes, só consegui acha-lo porque os
próprios filhotes reclamaram da falta de espaço.
Belchior
abaixa a cabeça envergonhado.
—
Tudo bem, agora temos problemas mais urgentes para tratar. Senhor Belchior,
precisamos conversar, porque a Cuca sabe que o senhor está conosco e o quer de
volta…
—
O quê? Não, nem pensar, isso é impossível. O senhor mesmo, já me mandou para
longe, exatamente para evitar isso, lembra? — Belchior está à beira de um
ataque de nervos.
—
Sim, lembro, no entanto estamos todos aqui e precisamos de um plano, pois ela
mantém refém um amigo da Princesa Macar e ela quer libertá-lo.
—
Com todo respeito, Conde E, mas eu realmente não quero participar de nada que
me exponha à Cuca. Por favor, me envie de volta para o seu mundo, não quero
ficar aqui. Não quero correr riscos. Por favor.
A
súplica é quase irracional e Táquio sabe que tem que agir com serenidade, pois
o que menos precisa agora é de um rouxinol encantado perdido, num mundo
devastado. Belchior, instintivamente, se transforma em um rapaz, Táquio o
abraça carinhosamente como se o estivesse protegendo, faz gestos para o curió e
o Zebu saírem do cômodo.
O
tempo passa e a escuridão recai sobre o mundo. Táquio reencontra Imã e Drica,
acompanhado de Belchior.
—
Vô, o que vamos fazer? — Imã já se recompôs.
—
Está tudo bem, Espoletinha, eu vou dar um jeito, mas agora eu tenho uma notícia
para dar a vocês. Lá na frente, fui avisado de que os batedores encontraram
duas pessoas.
—
Será que são a Tiana e o Rui? — Drica se entusiasma.
—
Não faço ideia, ainda estão desacordados. Eu quero que vocês vão até lá, para
certificar quem é e trazê-los aqui. Seja quem for.
—
Pode deixar, vô. a gente não demora. Vamos num pé e voltamos noutro. Vem, Drica
e senhor Belchior! — Imã se levanta.
—
Não, o senhor Belchior fica aqui comigo.
—
O que? Não, senhor Conde E, eu acho melhor ir com a Princesa Macar e… —
Belchior se mostra contrariado.
—
Não, senhor Belchior, o senhor tem outra missão, venha.
Apesar
dos protestos, não resta alternativa a Belchior, se não seguir as ordens de
Táquio. Drica também não quer perder tempo e puxa Imã para acompanharem Zebu.
Os passos são apressados, em pouco tempo chegam ao acampamento da vanguarda,
mas logo ficam assustados com um grito de medo.
—
Saiam, daqui, saiam, me deixem, vocês não vão me devorar. Bando de animais
selvagens. Como é possível.
Os
protestos soam de dentro da cabana, onde saem várias criaturas, minidipis,
pavoros, cães, gatos, galinhas e tantas outras. Zebu faz sinal para que as
meninas esperam até que ele verifique do que se trata. Mas, assim que o
minidipi entra, por pouco não é atingido por uma vassoura, arremessada com
bastante força, mas nenhuma precisão. Logo atrás um jovem irrompe para fora.
—
Rui? — as meninas gritam em uníssono.
O
rapaz olha para elas incrédulo.
—
Graças a Deus, gente normal. Tomem cuidado, esses animais queriam me matar para
comer. Eles são antropófagos. Venham, vamos sair daqui! — o rapaz continua
descontrolado.
—
Peraí, você não é o Rui. Parece com ele, mas não é ele. Não se preocupe com os
bichinhos, eles são nossos amigos. — Imã rapidamente solta o braço.
A
atitude ríspida da menina, surpreende o rapaz, ele não entende a relutância
dela em acompanhá-lo.
—
Rui? Não, não sou o Rui, sou o Renê, irmão mais velho dele. Seis minutos mais
velho, para ser preciso!
—
Caramba, Imã, tem dois deles no mundo? — Drica graceja.
—
Você é a Imã? — Renê tenta raciocinar.
—
Como você veio parar aqui?
—
Não faço ideia. A última coisa que eu lembro é de receber a visita de uma
senhora, dizendo que era amiga do meu irmão e sua tia… algo assim.
—
Será que foi a Tiana?
—
Isso, senhora Tiana, isso mesmo. Uma senhora admiravelmente simpática.
—
Tá e depois? — Drica fica curiosa.
—
Bom, ela deixou um objeto na mão do meu irmão. Depois que ela saiu eu dei uma
olhada no objeto, de repente tudo ficou escuro e só lembro de acordar nesse
lugar, rodeado por esses animais. Por pouco eu…
—
Espera aí, você disse que recebeu a visita da Tiana? Por que ela foi te
visitar? — Imã percebeu algo estranho.
—
Não, ela foi visitar o Rui. O meu irmão está acamado, depois do acidente que
sofreu.
—
Que acidente? — dessa vez é Drica quem fica preocupada.
—
Quem é você?
—
Eu sou a Drica, a gente se falou ao telefone.
—
Ah, sim, Drica, eu quero te pedir desculpas pelo jeito que te tratei, mas…
—
Agora não Renê, conta o que aconteceu ao Rui. — Imã se agita.
—
O Rui foi assaltado, quando estava saindo da sua casa para vir à nossa. Dois
desgraçados o empurraram na rua, ele caiu e um ônibus quase o atropelou. Por
sorte o motorista conseguiu frear a tempo para evitar o pior. Mas, o meu irmão
é forte, eu tenho certeza de que vai superar mais esse problema.
Imã
coloca a mão sobre a boca. Drica começa a chorar.
—
Por que você não estava com seu irmão? — Imã insiste em saber os detalhes.
Drica
interrompe entre soluços.
—
Não, Imã, depois que você e o senhor Belchior viajaram, o Rui tentou segui-los
e eu não deixei. Liguei para a casa dele pedindo que o fossem buscar, mas ele
se aborreceu e resolveu ir sozinho. Tudo culpa minha, eu não devia ter feito
aquilo.
—
Não se culpe, Drica, o Rui é assim mesmo, toma as piores decisões, ainda mais
quando é contrariado. Sempre foi mais emotivo do que eu. Aliás, vocês parecem
que estão acostumadas a esse lugar, o que é aqui? Quem são essas criaturas?
Como vim parar nesse lugar?
—
Não fale assim do seu irmão, ele já nos salvou de vários perigos. Nós estamos
em um mundo interdimensional, viemos aqui para resgatar meu avô. Cadê o Rui,
veio contigo?
—
Você não entendeu o que eu disse? Ele está internado, não pode levantar da
cama, porque tá sedado.
Imã
não ouve a advertência do rapaz e se dirige para a cabana. Renê fica parado
tentando entender as ações, ao mesmo tempo em que se preocupa com as criaturas
que estão ao redor do trio, esperando algum desfecho. Drica pede que Gualbe se
aproxime.
—
Renê, esse é o senhor Gualbe, nesse momento é o responsável pelo deslocamento
da população. Foi ele quem o encontrou e o trouxe para a cabana para tratar de
vocês. Gualbe, esse é o Renê, irmão do Sir Gallagher
Gualbe
estende a mão para cumprimentar o rapaz. Ainda perplexo ele hesita por alguns
instantes.
—
Por favor, senhor Renê, queira aceitar minhas sinceras desculpas se fomos
descuidados convosco.
—
O que? E-ele fala?
—
Renê! — Drica gesticula para que Renê responda ao cumprimento.
O
rapaz, ainda tremendo nervosamente, aperta a mão do símio com delicadeza. Logo
as outras criaturas se aproximam para cumprimentar também.
—
Não, não, não, peraí! Eu tenho alergia a bichos. Por favor, se afastem… eu…
— Você sempre foi o fresquinho da família, não é irmão? — Rui aparece na porta da cabana ao lado de Imã.

M. P . Cândido
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Carlos Mota
Bruno Olsen
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