
No
capítulo anterior, enquanto Imã e Drica vão para a frente da caravana a fim de
saber quem foi encontrado, senhor Belchior ficou para trás a pedido de Táquio.
Imã e Drica conhecem o irmão de Rui, o Renê.
CAPÍTULO 20 - O QUE TE FALTA É ÓDIO
No
interior sombrio de um angelim-vermelho, Cuca caminha impaciente em torno da
armadilha que mantém Carlito inconsciente.
—
Por que essa demora? O que estão aprontando?
De
vez em quando a maga olha para seu prisioneiro.
—
O que está pensando? Quer saber por que eu quero ir ao seu mundo? Você nunca
sentiu um vazio na vida? Nunca pensou em ter mais do que tem? A sua natureza
não deseja sempre mais?
A
armadilha mantém Carlito imóvel, as indagações da maga não chegam aos seus
ouvidos, ainda assim, ela mantém o monólogo, como se o rapaz a estivesse
entendendo.
—
Será que o Conde E o considera suficientemente valioso para aceitar a troca? O
que você acha? Logo estará livre? O que você acha, hein?
O
sorriso em sua expressão deixa bem claro a confiança que sente ao dominar a
situação.
Um
dia inteiro já passou e o silêncio que perdura está longe de significar alguma
tranquilidade. Táquio está concentrado, olhando através da janela, um ponto
fixo no horizonte. Belchior, ao contrário, tentava conter o medo pelo futuro
que o aguarda. “Por que o Conde não me
deixou ir com a Princesa? O que ele quer comigo? Por que está tão quieto?”
Apesar das suspeitas, o rapaz não ousa interromper os devaneios. Táquio, por
sua vez, ignora totalmente o drama do ser encantado e a atmosfera angustiante
que paira no ambiente.
Finalmente,
Táquio se vira para Belchior, que se assusta com a atitude repentina. Fica sem
saber o que fazer ao vê-lo caminhar lentamente na sua direção.
—
Chegou a hora, senhor Belchior.
—
Hora de quê, senhor Conde?
—
O senhor terá que ir a um lugar. — Táquio gesticula para dois ursos pardos
entrarem na sala — Levem-no e aguardem k meu sinal.
Belchior
fica sem ação ao ser agarrado pelos braços.
—
Não entendo, senhor Conde, o que é isso? Pra onde me levam?
Táquio
não o responde, apenas observa os ursos levarem o rapaz. A relutância de
Belchior já era esperada e, apesar de não ser agressivo, os ursos o seguram com
firmeza, logo somem pela porta.
Táquio
relembra a situação, primeiro entregar Belchior, depois resgatar o amigo da Imã
e enviar a turma de volta para casa. Em teoria tudo parece perfeito. Exceto
para Táquio, pois sabe que a Cuca não é confiável e certamente não deixará que
tudo se desenrole naturalmente. Portanto, é prudente ter um plano B, ou talvez
um plano A, já que a maga não cumprirá a sua parte na troca.
Após
muitos anos, é a primeira vez que Táquio se sente cansado, olha ao redor, era
um mundo incrível com belíssimas maravilhas naturais, nativos pacíficos que
recebiam estrangeiros com amabilidade e obséquio. Não havia conflitos entre as
diferentes raças e essa harmonia se refletia no meio, pois era tudo muito
colorido e de agradáveis odores. O clima fresco e o céu claro completavam o
quadro fantástico de um verdadeiro paraíso e tudo foi destruído pela ganância
de poder de uma criaturinha má.
Por
um instante Táquio questiona se não foi a sua presença que provocou esses
desequilíbrios, porém logo afasta esse pensamento, não é hora para lamentações.
Atrás
dele, brilham dezenas de pares de olhos esperançosos e crentes, que não
conhecem a maldade e não acreditam em traições, invejas, malícias e tantos
outros vícios que destroem a essência de cada um. Também por isso não
questionam sua liderança, pois todos querem reconquistar o estilo de vida que
tinham antes de toda essa devastação,
porém é algo que não existe mais, pelo menos não nesse grau de
inocência. Esses são os resultados do sofrimento imposto pela própria Cuca.
Ainda que Táquio consiga frustrar os planos dela, suas maldades criaram raízes
profundas em todos. Ele sabe que há muito mais em jogo do que a segurança da
sua neta e amigos.
De
volta ao apartamento da família de Imã, Tiana abre o escritório com cuidado, no
fundo acredita no milagre de ver as crianças de volta. Vê-los todos na mesma
posição, em que havia deixado antes de ir ao hospital, a deixa um pouco
frustrada, mas não se abala. Confere as bolsas de soro, verifica novamente se
estão bem acomodados e fecha novamente a porta. Sua intenção é voltar ao quarto
para rezar, pedindo a intercessão dos céus nesse problema tão grave, pois, mais
cedo ou mais tarde, os pais de Imã irão entrar no escritório e terão que saber
a verdade. Por isso a urgência no retorno, para evitar maiores
constrangimentos.
O
telefone toca, tirando-a de sua concentração.
—
Oi Tiana, sou eu, a Zuza.
—
Oi, minha filha, tá tudo bem?
—
Sim, estou bem. Só tô ligando para avisar que devo demorar um pouco mais do que
esperava. Como estão as coisas aí?
—
Na maior paz, as meninas já se alimentaram. Estou cuidando de tudo.
—
Bom saber. A Imã saiu do escritório? Ela tá bem? Queria falar com ela.
—
Ela está bem, sim, mas acabou de comer e foram dormir. — Tiana teve que mentir.
—Tiana, ela ainda está brava comigo?
—
Não, minha filha, não se preocupe, é coisa de adolescente, logo passa. Ela não
é geniosa, não guarda nada no coração, você vai ver.
—
Tá bem, Tiana, obrigada. Qualquer coisa você me liga, por favor.
—
Pode ficar tranquila, eu te aviso sim. Beijos.
O
pai de Imã também quis saber da situação e teve as mesmas respostas. A mentira
incomoda, mas de alguma forma, Tiana considera que a Providência Divina está
ajudando.
De
volta ao acampamento de vanguarda, Drica não se contém de alegria e corre para
abraçar Rui, diante da perplexidade de Renê.
—
O quê? Espera, aí, como?
A
alegria de Drica e Imã ao rever o amigo é tão grande que eles esquecem onde
estão, Rui porém, logo sente uma ausência.
—
Pelo visto, ainda não encontraram sir Machado.
—
Quem é Sir Machado? E como é possível que você esteja assim, todo sadio? — Renê
se mostra cada vez mais perdido.
Imã
e Drica gesticula para que Renê fique calado, mesmo sem entender ele obedece.
—
Calma, irmãozinho, eu já vou te contar como são as coisas aqui.
Drica
coloca os braços sob os de Rui e relata os acontecimentos. Imã explica a Renê
que talvez não seja a hora para dizer a Rui em que condições ele realmente se
encontra, depois caminham na direção da vanguarda, Renê segue desengonçado,
tropeçando em cada desnível do terreno e tentando se afastar de Gualbe, que
também retorna com o grupo.
Logo
que chegam, ao abrigo, Imã corre para o avô, já se preparando para encontrar a
Cuca.
—
Vô, esse aqui é o Rui e seu irmão, Renê.
—
Olha, só, irmãos gêmeos, muito prazer.
—
O prazer é todo meu, senhor Táquio. — Renê se adianta para responder a
saudação.
—
Para mim é uma honra, finalmente conhecê-lo, Conde E. Eu sou Sir Gallagher e
esse é meu irmão e pajem, Renê.
—
Peraí, que história é essa de pajem? Eu não sou seu pajem coisa nenhuma. Sou
mais velho que você seis minutos, não esqueça disso. Se alguém aqui é para ser
pajem, é você!
Imã
intervém.
—
Calma, meninos, o Rui está só tirando sarro da sua cara, né, Rui? Não começa a
briga.
Rui
apenas segura o braço de Táquio para se afastarem. Enquanto Drica tem uma
curiosidade e fala com Gualbe.
—
Vocês não estranham que o Rui e Renê sejam praticamente iguais?
—
São? Bom, pra ser sincero, Dona Drica, todos vocês são muito parecidos, para
mim. A única diferença é que as fêmeas de vocês têm um cabelo e cheiros
diferentes, mas o resto…
Drica
olha para Gualbe assustada. Imã se aproxima de Táquio e Rui.
—
Vô, cadê o senhor Belchior?
—
Ele está num lugar seguro.
—
O seu avô é um gênio, Imã. Concordo com o plano dele. Aliás, só tem um detalhe
que o senhor esqueceu.
—
Espera aí, Rui. Vô, que plano é esse?
—
A Cuca quer o senhor Belchior em troca do amigo de vocês…
—
O Carlito.
—
Isso, o Carlito. Mas, depois de todos esses anos, posso dizer que a conheço bem
e sei que ela tentará, de alguma forma, ficar com tudo. Pois precisa tanto do
rouxinol, quanto do Carlito.
—
E como você sabe que ela não vai pegar o senhor Belchior e invadir o nosso
mundo?
—
Porque ela ainda não sabe como usar as cirandas. — Rui ajuda a explicar a
situação.
—
A gente não sabe disso. — Imã está receosa.
—
Sabemos, porque se fosse diferente, ela não se importaria com mais nada e já a
teria usado. Talvez o Carlito tenha deixado escapar alguma coisa e a fez pensar
que precisava do senhor Belchior. — Rui completa o raciocínio.
—
Por isso, eu deixei o Belchior isolado, para que ela não pense que terá as
coisas de mão beijada.
—
E se ela decidir atacar de qualquer jeito?
—
A Cuca é objetiva, não vai querer arriscar perder o Belchior para sempre.
Agora, fiquem aqui que eu irei encontrá-la.
—
Nada disso, vô, nós vamos todos juntos.
—
Isso mesmo, Conde E, eu não vim de tão longe para ficar entocado. O Carlito
faria o mesmo por mim.
—
Pode ser perigoso demais, até para mim.
—
Exatamente por isso, juntos seremos mais fortes. — Rui demonstra hombridade.
Ao
ser informado do próximo evento, Renê não aceita participar.
—
Vocês estão malucos? Eu não vou entrar em guerra nenhuma, nem sei o que está
acontecendo. Essa luta não é minha, eu vou ficar por aqui mesmo.
—
Viu, Conde E? Exatamente como um pajem faria. — Rui provoca.
—
Escuta aqui, seu moleque… — Renê tenta argumentar.
—
Meu irmão, o que te falta é ódio.
Rui,
Táquio, Imã e Drica saem do abrigo até o ponto de encontro. Gualbe é instruído
a retirar os últimos nativos dali. O olhar insistente das criaturas incomoda
Renê, que resolve se juntar ao grupo.
Não
demora muito e Cuca surge no céu, acompanhada de vários tukurás, no céu e na
terra.
—
Então, temos um acordo?
—
Você não parece estar muito confiante, tem muitos tukurás contigo! — Táquio
provoca.
Rui
cochicha ao ouvido de Imã “esse era o detalhe que falei, devia ter exigido que
ela viesse sozinha.”
—
Não importa, onde está minha criatura? — Cuca fica mais irritada. — E quem são
esses aí ao seu lado?
—
Em um lugar seguro. Onde está o seu prisioneiro?
Renê
está cada vez mais espantado.
—
Pessoal, é impressão minha ou o exército dela é formado por besouros gigantes?
E tem cada vez mais chegando.
Neste
momento, Rui olha para o final da turba e percebe um estranho vulto.
—
Não confia em mim, Conde E? Por isso escondeu a minha criatura?
—
Acho que nós dois sabemos a resposta para essa pergunta.
—
Não deveria ser eu que tenho motivos para desconfiar de ti? Não foi você quem
me enganou?
Na
retaguarda, Drica e Rui confabulam com Imã.
—
Estamos numa sinuca de bico, nem ela nem seu avô confiam um no outro. Ambos
tiveram a mesma estratégia.
—
Eu não sei o que podemos fazer. — Imã também está confusa.
—
Aí, não é por nada, não, mas tem muito besourão chegando. — Renê está cada vez
mais preocupado. — Desculpa, Imã e Drica, mas a situação tá agravando cada vez
mais e eu não posso deixar meu irmão assim, no escuro.
—
O que você quer fazer, Renê? — Imã fica nervosa.
—
Esse mundo é muito estranho, mas a realidade é outra e tenho que contar com ele
tá de verdade.
—
Não, espera…
—
Imã, o Renê tem razão, o Rui precisa saber. — Drica segura no braço da amiga.
Renê puxa Rui de lado e fala sobre o assalto, o atropelamento e seu estado no hospital. A reação do gêmeo é mais tranquila do que o esperado. Ele para uns instantes, olhando tudo ao redor.

M. P . Cândido
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Carlos Mota
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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