
No
capítulo anterior, Rui e Cuca somem dentro da ciranda, Carlito está enfeitiçado
e aprisiona Táquio, Imã e Drica, Renê e
Belchior procuram a toca da Cuca.
CAPÍTULO 22 - SÓ SEI CANTAR
Escondidos
sob uma fenda no chão, Renê e Belchior tentam avaliar como poderiam entrar no
oco da árvore. O tronco é gigantesco, tanto que não dá para enxergar as bordas.
Todo terreno ao redor é descampado, o chão é escuro, sem nenhuma outra árvore
em volta, o clima é excessivamente abafado e o trânsito de tukurás é constante.
As opções não são animadoras.
—
Então, Belchior, alguma ideia?
—
Eu não e o senhor?
—
Pode me chamar de você.
—
Por que eu chamaria o senhor de você?
—
Ah, sei lá, talvez porque essas formalidades não cabem em dois companheiros que
precisam se unir para enfrentar dificuldades. Sabe, é como a gente aumenta a
nossa intimidade.
—
Mas, não é o senhor quem está liderando a jornada? O título é um reconhecimento
de autoridade e organização hierárquica. Isso não impede a intimidade, ao
contrário, a vulgaridade tende a nos deixar iguais e isso é falso, já que
dependo das suas decisões. Os pronomes
de tratamento não são considerados em seu reino?
—
Bem, são, mas é que…
—
Se me permitir uma observação, as suas atitudes são diferentes do Sir
Gallagher. É estranho o senhor se preocupar com isso nesse momento.
—
Tá tudo bem, esquece.
No
interior do angelim-vermelho, Carlito tenta contato com a Cuca, mas sem
sucesso. Então, ele ordena que um tukur abaixe a membrana paralisadora dos
prisioneiros, apenas até o pescoço.
Táquio,
Imã e Drica tossem expelindo o líquido da garganta. Carlito se aproxima de
Táquio.
—
Eu quero saber se você pode encontrar a mestra.
—
Mestra? Mestra de quem?
—
Não comece com joguinhos, responda a pergunta.
Imã
se intromete.
—
O que houve contigo, Carlito? Não nos reconhece?
—
Vocês são inimigos da mestra e a minha missão é protegê-la.
—
Cara, que água é essa que você bebeu? A gente só quer sair desse mundo louco e
te levar conosco. — Drica também intervém.
Táquio
tenta mexer os braços, mas a substância o mantém imobilizado, Carlito percebe.
—
É inútil tentar se livrar, nada é capaz de escapar do caldo. Poupe suas forças.
—
As meninas estão falando a verdade, elas querem te levar para onde a Cuca está.
—
Eu não quero ir até lá, apenas fazer contato e não permitirei que saiam daí até
que a mestra volte e dê a ordem.
—
Pára com isso, C3, a Cuca não é sua mestra, ela é má! — Imã se exaspera.
—
“C3”? — Táquio olha para Imã.
—
É, seu Táquio, o Carlito é o C3 e o Rui é R2.
—
Meu Deus, aqui seria o último lugar em que eu pensaria encontrar droids.
—
Vô, o senhor sabe o que são essas letras?
—
Calem-se! — Carlito gesticula para o tukur recobrir Drica e Imã.
—
Não! — Táquio protesta — Escuta, rapaz, as meninas só querem te ajudar.
—
Pois então, abra o canal para a mestra.
—
Se eu te ajudar você as liberta?
—
Não, isso não é uma negociação. Você faz o que mando, ou ficará eternamente
preso no caldo.
—
É você quem quer falar com ela, não eu.
—
Se você não me ajudar, não há razão para essa conversa. — Carlito ordena
novamente o tukur.
—
Espera, espera e se a Cuca estiver com problemas e precisar de ajuda?
Carlito
impede o avanço do tukur.
—
O que quer dizer com isso, como sabe que a mestra está em apuros?
—
Ora é simples, se ela estivesse mesmo tranquila, já teria voltado para levar
seu exército consigo, não acha? Quanto tempo já estamos aqui? Eu não sei,
talvez ela nem pudesse voltar. Mas, se quiser arriscar e esperar. Sei lá, se eu
fosse você…
—
O quê?
—
A solução é simples, eu te ajudo e você me ajuda. Liberte as meninas, volte com
elas e veja por si mesmo como ela está, depois você volta para cá e aguarda
novas ordens. O que acha?
—
Terminamos por aqui.
O
tukur volta a subir a substância também para Táquio.
Do
lado de fora, encolhidos sob a fenda, Renê e Belchior ainda estão no impasse.
—
Pelo visto ficaremos aqui uma eternidade. Não consigo pensar em nada. — Renê
arrisca levantar a cabeça em alguns momentos.
—
Eu não conseguiria ficar tanto tempo, preciso me alimentar. — Belchior também
olha em volta.
—
Eu tava exagerando, é claro que não podemos ficar uma eternidade escondidos.
Mas, temos que fazer alguma coisa, além de ficar esperando eles morrerem de
velhice. Como você disse, um ataque direto é inútil, pois seria eu contra
milhares deles e você não tem condição de enfrentá-los. O que é curioso, já que
no meu mundo os pássaros são mais poderosos que os insetos, tanto é que eles
correm quando vêem um.
—
No seu mundo tem insetos desse tamanho?
—
Não… é, talvez seja essa a razão, os pássaros são muito maiores.
—
Ainda assim, não fui criado para atacar nenhuma criatura, eu sou um condutor
místico, não sei atacar ninguém.
—
Isso é natural, todo ser vivo quer continuar vivo e para isso precisará
aprender a se defender e, às vezes, atacar.
—
Nunca precisei atacar.
—
Um dia você verá que tem a força para se defender… Bom, acho que não tem jeito.
É isso ou morrer aqui nesse mundo.
—
O senhor teve uma ideia? O que pretende?
Dois
tukurás anunciam chegada no angelim-vermelho, Carlito os recebe diante dos
prisioneiros que só podem ver imagens distorcidas e sons abafados, através da
substância.
“Senhor, tem certeza de que é uma boa ideia?”
“Queríamos entrar, não queríamos? Cá estamos.”
“Sim, mas não acho que estejamos melhor do
que quando estávamos escondidos.”
“Você tinha ideia melhor?” Diante do
argumento, Belchior se cala.
Assim
que os novos prisioneiros são deixados no chão, Carlito se surpreende.
—
Você… !
—
Eu acho que te conheço, você é um amigo, não é? Não me reconhece?
—
Você se parece com o R2, mas… — por um instante a escuridão nos olhos de
Carlito brilham.
—
Olha, eu sou seis minutos mais velho que o Rui e você é o melhor amigo dele. Se
você lembrou disso, tem que se lembrar quem é.
“Senhor, repare nos olhos dele.” Belchior
chama atenção de Renê.
A
escuridão volta ao semblante de Carlito.
—
Eu sei quem sou, não sei quem é esse rapaz. — Carlito aponta para Belchior.
O
jovem se aproxima e ajoelha.
—
Se me permitir, senhor, eu sou…
—
Um moleque que tava perdido e eu trouxe pra me dar uma ajuda a chegar até aqui.
— Renê interrompe Belchior.
—
E o que querem, vindo aqui?
—
Eu quero voltar pra minha casa e só esses aí podem me ajudar.
—
Você quer que eu os solte?
—
Se não for incômodo, é só pra me mandar de volta e nunca mais irá me ver
novamente, prometo.
—
Não por isso, posso realizar o seu desejo sem precisar soltar ninguém.
“Senhor!”
—
Sério? Você sabe como abrir um portal?
“Senhor!”
“O que é Belchior?” Renê responde
impaciente.
“Não acho que ele tenha intenção de enviá-lo
pelo portal.”
“O quê?”
—
Não preciso abrir portais para não vê-lo nunca mais, nem você, nem seu amigo
perdido. Tukurás!
Os
dois tukurás que estavam como vigias se aproximam de Renê e Belchior
ameaçadoramente.
— Eu sabia que não ia ser fácil, nunca é. Bom,
eu tentei. — Renê abre a boca e solta um potente grito que empurra os tukurás
para trás até que ficam entalados no portal. Carlito se joga contra Renê e o
empurra ao chão. Belchior corre para os prisioneiros, se escondendo atrás da
substância.
Renê
consegue jogar Carlito de lado e grita em sua direção, o som agudo agride os
ouvidos, fazendo-o tapar os ouvidos com as mãos por causa da forte dor, os
tukurás tentam sair do portal, mas rapidamente, Renê direciona as ondas sonoras
e sua direção, aumentando gradualmente os decibéis até que a vibração faz com
que seus abdômens se expanda ao ponto de lacrar a entrada. Carlito se levanta
novamente e busca por Renê.
—
Belchior, agora!
O
rouxinol começa um cântico e Carlito adormece instantaneamente. Logo a árvore é
sacudida por diversas pancadas, como se alguém estivesse usando aríetes contra
as paredes ao redor.
—
Rápido, Belchior, não temos muito tempo!
—
E-eu não sei o que fazer.
—
Como assim? Diz como faço para tirar nossos amigos dessa, dessa coisa
melequenta.
As
paredes começam a rachar, as batidas estão cada vez mais potentes, toda árvore
balança.
—
Não sei, senhor, já disse, eu só sei cantar.
—
Caramba, não temos muito tempo, isso aqui vai ficar lotado de besouros
famintos.
Belchior
começa a tremer da cabeça aos pés, Renê se aproxima dele.
—
Não, olha só, agora não é hora de entrar em choque. Vem cá, faz uma coisa.
—
O-o quê, senhor?
—
Você diz que sabe cantar, né? É só o que precisa fazer, cante. Mas, cante o
mais alto que puder, faz os besouros dormirem também. Você tem que acreditar em
si mesmo, lembra o que te falei? Essa é a hora que você vai aprender a se
defender.
—
Ma-mas, senhor…
—
Canta, agora!
Belchior
atende a ordem, e começa a entoar as mais altas notas que seu peito é capaz de
soltar, em princípio parece que a manobra surte efeito, pois os ataques à
árvore cessam. Mesmo assim, Renê sabe que a situação não está totalmente
controlada e tem preciosos segundos para entender como funciona o caldo. Porém,
ao voltar seu canto para o lado externo do tronco, eles esqueceram um detalhe.
—
Você é…
—
Ai, Carlito, você acordou? — Renê toma posição de defesa.
—
Você não é o Renê, Seis Minutos?
—
Não acredito que meu irmão me roubou isso.
—
O que é isso, onde estamos?
—
Olha, Carlito, nós estamos na toca da lagartixa do mal e aqui estão nossos
amigos.
—
Meu Deus, essa é a Imã e a Drica?
—
Isso, e aquele ali é o avô delas… ou dela, sei lá. Você sabe como a gente tira
eles dessa meleca?
—
Não, não sei… mas eu lembro…
—
Você foi enfeitiçado pela maga, mas tinha consciência, até para tomar decisões
a favor dela, por isso deve ter alguma memória de tudo que viveu aqui. É só se
esforçar um pouquinho.
—
Eu não lembro… espera, acho que já sei…
O
tronco volta a sofrer tremores, Belchior ficou sem fôlego, é difícil manter o
equilíbrio, a situação está cada vez mais perigosa. Renê vai para a porta de
entrada limpando a garganta e se preparando para atacar, pois os tukurás que a
bloqueiam, começam a se movimentar, caindo lascas no chão.
Carlito
começa a gesticular com as mãos, um brilho envolve seu corpo, ele estende os
braços para frente, a aura é transferida para as paredes, o brilho atua como um
escudo de energia que sustenta o tronco.
Renê
fica maravilhado.
—
Wow! Que bacana, cara. Como você fez isso?
—
Na verdade, não sei, foi instintivo. Como você disse, algumas coisas ficaram na
memória e achei que um escudo seria útil.
—
Muito obrigado, Sir Machado.
—
Você é o senhor Belchior? Lembro que te vi no mundo das máquinas.
—
Sim, nós chegamos e o senhor desapareceu.
—
Olha, gente, sem querer cortar o barato de vocês, acho que, mesmo com esses
encantos de proteção, a gente não devia abusar do tempo.
—
Tem razão, Seis, deixa ver se lembro como desfazer essa membrana.
—
Pode me chamar de Renê, eu…
Belchior
pede que se faça silêncio para que Carlito consiga lembrar como libertar os
amigos. Os tremores retornam, mais uma lasca de tukur cai do portal. Renê e
Belchior aguardam com extrema angústia.
—
Já sei! — o grito de Carlito assusta os rapazes. — Senhor Belchior pegue essa
lasca de tukur.
Assim
que Belchior entrega o pedaço a Carlito ele toca no caldo e o desce como se
fosse uma espátula, a membrana vai se descolando aos poucos. Renê entendeu a
técnica e apanha mais uma lasca, ato que também é copiado por Belchior. Logo
que os três são libertados, Imã abraça Carlito com força, Drica agradece a Renê
e Belchior. Táquio também está radiante de alegria.
—
Nós ouvimos e vimos tudo o que passou aqui, muito obrigado, vocês foram
incríveis.
—
Carlito, nós procuramos você há muito tempo. Tô tão feliz de te encontrar que
nem vou brigar por ter nos prendido.
—
Imã desculpa, eu não sabia o que tava fazendo.
—
Eu sei, não esquenta. Eu sou responsável por toda essa bagunça.
—
Ai, gente, não é hora pra ficar se culpando. — Drica também está feliz. — Renê
você é genial, igual ao seu irmão.
—
Não leve a mal, eu tenho mais experiência.
—
Sim, sim, tem seis minutos a mais. — Drica graceja.
—
Senhor, é uma honra finalmente tê-lo conhecido.
—
Eu também estou feliz por ver que você é um bom rapaz.
—
Galera, tá tudo muito bem, mas acho que a gente ainda não terminou.
Como
se respondendo à observação de Renê, um buraco no tronco e no escudo energético
começa a abrir, através dele, mandíbulas de exoesqueletos tentam alargar mais a
abertura.
—
Renê tem razão, Espoletinha, agora vocês precisam sair daqui, rápido!
—
Tá bem, vô. — Imã pega na mão de Drica e logo fazem uma corrente segurando Renê
e Belchior.
—
Não, esperem, nós não vamos sem o senhor Táquio. Fizemos tudo isso por ele. —
Carlito não entra na corrente.
Táquio
olha diretamente para Carlito.
—
Escuta rapaz, não temos tempo pra isso, vocês precisam ir urgentemente. Não se
preocupem comigo, sou invulnerável aqui, lembram? Quando estiverem a salvo, a
Imã vai te explicar. Confie!
Diante da austeridade, Carlito se conforma e segura a mão dos amigos. Drica e Imã apanham as cirandas, Drica entrega a sua para Renê e Belchior começa a cantar. Antes de desaparecerem, Imã consegue ver que os tukurás invadem o tronco. Ela chora, novamente deixou seu avô para trás.

M. P . Cândido
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Carlos Mota
Bruno Olsen
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