
No
capítulo anterior, Carlito aprisiona Imã, Drica e Táquio, Renê e Belchior
precisam entrar no angelim-vermelho para resgatar os amigos.
CAPÍTULO 23 - O QUE TÁ ROLANDO AQUI?
Finalmente
o silêncio impera no apartamento, até o clima do lado de fora, que há pouco
ficou meio louco com relâmpagos, trovões, rajadas de vento e descargas
elétricas inexplicáveis, agora estava limpo e claro, como se nada tivesse
acontecido. Ao longe pode-se ouvir uma música alegre tocando de algum
apartamento na vizinhança.
A
sala vazia pulsava ao tique-taque de um antigo relógio de cômoda, herança de
família, as cortinas caem plácidas sobre o piso brilhoso, o aroma relaxante de
jasmim paira no ar.
Ciente
de que não lhe competia ajudar as crianças de forma mais incisiva, Tiana
entregou-se às orações até cair exausta. Entre os dedos pende um terço, seu
guia para dirigir os rosários que dedicou ao santo padroeiro, pedindo proteção
e sabedoria. Ao menos assim ela tem certeza de que não irá piorar a situação.
Para
uma mente jovem, talvez esses saltos entre mundos seja uma grande diversão, mas
para a sexagenária certamente exaure toda energia que dispõe.
Um
ronco mais retumbante desperta Tiana em um susto. Ela esfrega os olhos, se
ajeita na cama novamente, olha para a mão e leva uma fração de segundo para
retomar o raciocínio. Precisa fazer um esforço para se levantar, ajeita o
vestido e sai do quarto. “Como devem
estar as crianças?” ela se arrasta pelo corredor, um tempo que aproveita
para pensar em alguma desculpa para quando a Ziza ligar, e certamente irá
ligar. Mesmo com toda experiência de vida, Tiana sabe que uma hora ou outra, os
pais de Imã precisarão saber toda a verdade.
Um
ruído chama atenção da senhora para a copa, mas não dá importância, a
prioridade é ver o estado das crianças. Ao chegar no escritório seu coração
dispara, a porta está apenas encostada, ela entra e não encontra ninguém, sua mente tenta entender a situação, então
sai do escritório para vasculhar a casa e esbarra em Ziza, seus olhos
arregalados, os lábios embranquecem, a mente tenta encontrar uma resposta
rápida, mas a mãe de Imã surpreende com um largo sorriso.
—
Que bom que você acordou, venha comer com a gente. — Ziza apanha a mão de Tiana
e a conduz até a copa.
Perplexa
pela surpresa, Tiana se deixa levar, pensando no que vai dizer, mas ao entrar
na copa, fica ainda mais abismada. Imã, Drica, Carlito e Belchior conversam
animadamente enquanto comem.
As
crianças levantam e correm para abraçá-la, a alegria contagia até a Ziza, que
não sabe porquê a comemoração, mas se sente feliz com reunião da filha e os
amigos.
—
Eu não quis te acordar, as crianças disseram que você está muito cansada e eu
mesma preparei o almoço deles. — Ziza continua arrumando a mesa com cesta de
pães, jarra de suco e tigela de frutas — Agora senta aí, deixa que eu cuido de
tudo.
Imã
é a mais entusiasmada, Carlito puxa a cadeira para Tiana sentar, ela não contém
a gargalhada nervosa.
—
Assim vocês acabam com o coração da véia aqui.
Enquanto
ajeita as baixelas sobre a mesa, Ziza conta como chegou em casa.
—
Tiana, abri a porta e fui direto ao escritório, encontrei a Imã com os amigos,
ela me pediu desculpas e prometeu se comportar.
—
Então a senhora nem entrou? Deve tá uma bagunça lá dentro. Deixa que vou lá
arrumar. — Tiana ameaça levantar.
—
Não! — Imã protesta — A gente já arrumou tudo, não se preocupe. Agora a senhora
precisa se alimentar. Está tudo bem.
Imã
pisca os olhos para Tiana e os amigos concordam, balançando a cabeça. As
conversas durante o almoço são animadas, Imã e Drica precisam se esforçar para
falar em códigos, Belchior também parece bastante animado. Porém, Tiana percebe
um desconforto em Carlito, que participa pouco do bate-papo.
—
Por que meu nobre cavalheiro está assim? — Tiana passa a mão no rosto do rapaz
com delicadeza.
—
Estou bem, senhora Tiana.
—
É por causa do Rui, ele só soube agora do acidente. — Drica esclarece, também
acariciando Carlito.
—
O Rui é um grande amigo e eu sinto quando não estou perto para ajudá-lo.
—
Sim, mas aquele menino é muito forte, tenho certeza de que vai sair ileso
dessa… Mas, eu acho que não é só isso, é?
Dessa
vez é a Imã quem intervém.
—
O Carlito passou por muitas coisas, vai demorar a superar tudo isso.
Ziza
tenta acompanhar a conversa.
—
Sobre o que vocês estão falando? O seu nome é Carlito, não é? Mora aqui por
perto?
Carlito,
Imã e Drica se dão conta da presença da Ziza e desconversam.
—
Ah, sim, senhora, eu a Imã e a Drica estudamos no mesmo horário, por isso a
gente se conhece.
—
E esse rapaz tão bonito? — Ziza se refere a Belchior.
—
Sou o Belchior, senhora Rainha. — o rapaz se levanta e inclina o corpo para
frente.
—
“Rainha”? — Ziza estranha o tratamento.
—
Não liga, mãe, o Belchior é assim mesmo, exagera na educação.
—
De qualquer forma agradeço o título, de certa forma sou a Rainha desse castelo
aqui e Belchior é um lindo nome. Agora vocês me deem licença, a casa está uma
bagunça e vou aproveitar o dia de folga para ajeitar tudo.
—
Eu eu vou te ajudar, minha filha, já estou bem. — Tiana também se levanta da
mesa.
Imã
corre para a frente da mãe.
—
Mãe, sobre o que eu te pedi. — a menina olha direto para a mãe, com firmeza.
Antes
que Ziza pudesse responder, o som agudo de uma sirene alta e tiros muito
próximos, assusta a todos. Drica corre para a varanda e logo chama para que
olhem as ruas. Os vizinhos também chegam em suas sacadas curiosos para saber o
que está acontecendo. De repente uma grande sombra passa por eles, arrastando
atrás de si uma lufada quente, a aparição é horripilante, Ziza cai sentada,
Tiana agarra as meninas e corre para o meio da sala, fechando a porta de vidro
após os meninos também entrarem. Carros de polícia cercam o condomínio,
enquanto um inseto gigantesco rodeia o prédio de Imã.
—
Meu Deus, o que foi isso?
Tiana
liga a televisão, notícias urgentes advertem aos cidadãos ficarem trancados em
casa, pois estão ocorrendo eventos inexplicáveis e as autoridades não conseguem
manter a segurança enquanto confrontam a estranha criatura. Carlito é o
primeiro a falar.
—
Acho que a Cuca conseguiu atravessar a ciranda e trouxe um tukur.
—
Eu estava com medo do Rui e a Cuca se perderem em outros mundos, mas pelo visto
eles conseguiram vir para cá. — Imã também raciocina.
—
Cuca? Que Cuca? — Ziza não consegue entender.
—
Imã, tá na hora de contar a sua mãe. — Tiana a encoraja.
Drica
concorda, Imã puxa a mãe para sentar no sofá e começa a contar para ela toda
aventura e os mundos que visitou. Ziza ouve perplexa com um misto de crença e
descrédito, a menina pega a ciranda para mostrar a mãe.
—
Você tem uma contigo? — Carlito se surpreende.
—
Vou precisar dela.
—
Talvez seja isso que o tukur está procurando, por isso está rodeando aqui.
Precisamos achar um jeito de bloquear.
—
Carlito, como você acha que ele tá rastreando a ciranda? — Drica fica
preocupada.
—
Não sei, não pode ser por olfato, talvez a ciranda esteja emitindo algum tipo
de onda de energia.
—
Caramba, você é nerd mesmo, pensou nisso tudo agora?
Imã
não quer perder tempo..
—
Só pode ser isso. Vou colocar a ciranda nessa bolsa térmica, talvez ajude a
despiste o tukur. Mãe, eu preciso ver o vovô, por favor. Você precisa acreditar
em mim, só ele é capaz de impedir mandar essas criaturas para o mundo delas.
—
Não, de jeito nenhum. Não posso deixar você sair de casa com esse monstro à
solta.
—
Dona Ziza, eu sei que pra senhora deve ser difícil acreditar em tudo que a Imã
contou, mas olhe uma coisa, Belchior. — Carlito aponta para Belchior.
Diante
de todos, Belchior retorna a forma de rouxinol. Ziza fica cada vez mais
espantada, mas antes de responder, olha para Tiana e Drica, ambas consentem com
a cabeça.
Ainda
muito abalada, Ziza sabe que a filha nunca desistirá do que quer.
—
Imã, como é possível chegarmos lá, com essas coisas voando por aí? — enquanto
fala, Ziza escreve o endereço do hospital em um papel.
—
Não, mãe, a senhora tem que ficar.
—
O quê, você não vai sozinha, não, nem pensar.
—
Belchior! — Imã pede ajuda.
Belchior
começa a cantar, Tiana e Ziza adormecem, os meninos as carregam até a cama.
—
Pronto, vamos lá Imã? — Drica se entusiasma.
Mas,
Imã não aceita.
—
Não, Drica, dessa vez, será só eu e Belchior.
Drica
se assusta com a negativa, mas fica calada. Carlito pede licença e levanta.
—
Eu vou ver o Rui. — percebendo o desconcerto de Drica, ele a chama para irem
juntos.
As
ruas estão vazias, Carlito fica atento a qualquer perigo, mesmo assim conseguem
chegar no hospital rapidamente.
—
Você tá bem, Drica? Está muito calada.
—
Tá tudo bem.
—
Tomara que a Imã consiga resgatar o vô Táquio. Antes de voltarmos pra cá, eu vi
que a toca da Cuca tava sendo invadida e agora essa coisa aparece aqui.
—
Você também percebeu?
—
Sim, mas não tô preocupado, porque o vô Táquio tem força e invulnerabilidade e
aprendeu a se defender do caldo.
—
Isso, ele é esperto, ficou esse tempo todo enfrentando sozinho os inimigos.
—
Isso mesmo. — Carlito responde sem entusiasmo.
—
Agora é você que parece triste.
—
Estou preocupado com o Rui. Com ele sem consciência, como a Cuca conseguiu
trazer esse tukur?
—
É mesmo, eu nem tinha pensado nisso.
—
Se tem uma coisa que aprendi é que não dá pra controlar a ciranda. Pelo menos
eu não consegui.
—
Vamos ter um pouquinho de Fé, C3, afinal estamos aqui, não é?
—
Sim, você tem razão, vamos esperar o melhor.
Enquanto
isso, Imã chega no hospital do vô Táquio. Mas, na recepção, a menina é
informada que os menores de idade não podem entrar. Imã fica indignada e
Belchior, confuso.
—
A Princesa Macar tem o direito de ver o Conde E. — protesta.
—
Não, Belchior, aqui as coisas não funcionam assim. — Imã tenta achar uma
solução, até que tem uma ideia. — Belchior, você não pode se transformar em um
adulto e entrar?
—
Você diz em alguém mais velho? Acho que posso.
A
recepcionista é um pouco fria.
—
O senhor é da família?
—
Ai, caramba! — Imã não contava com essa burocracia.
—
E agora, Princesa, o que faremos?
—
O que está acontecendo aqui? — a voz assusta os jovens.
Imã
e Belchior olham para trás a fim de saber quem está falando com eles.
—
Papai? O que tá fazendo aqui? — Imã fica apreensiva.
—
A sua mãe acordou confusa e me contou umas coisas estranhas, um tal besouro
gigante, havia uma confusão de policiais e vizinhos gritando, depois que você
veio para cá. Eu achei melhor vir aqui para ajudar. E quem é esse rapaz?
—
Eu saúdo o Rei, sou Belchior, senhor e estou a seu serviço. — Belchior se
ajoelha.
Imã
o pega pelo braço obrigando-o a levantar, o pai da Imã acha engraçado.
—
Pai, a recepcionista disse que nós não podemos ver o vô Táquio e eu só queria
ficar um minutinho com ele, nada mais. Mas, preciso entrar com o Belchior.
—
Imã, você precisa me dizer o que é tudo isso. Eu quero ajudar você, mas tem que
me convencer.
Imã
e Belchior trocam olhares. Imã puxa seu pai para um canto e, sentados,
conversam por algum tempo. De vez em quando, o homem olha para Belchior,
espantado. Ele abaixa a cabeça, Imã fica apreensiva, esperando a reação do pai.
—
Isso é meio louco, filha.
—
Mas, é a pura verdade, pai, se não acredita em mim, ouça o senhor Belchior. —
Imã chama o rouxinol-adulto com um aceno.
Belchior
se aproxima já concordando com a cabeça.
—
Eu sei o que parece, senhor, mas acredite, é a verdade.
—
Vocês estão me dizendo que o vô Táquio tá assim porque seu espírito não tá no
corpo e quando voltar ele ficará consciente novamente. É isso?
—
Pai, você precisa acreditar em nós.
—
E esse rapaz é um rouxinol encantado?
—
Sim, senhor, eu sou dotado de dons especiais.
—
Você pode provar?
—
Pai, se o Belchior começar a cantar aqui, todos nós vamos apagar.
—
Algumas notas têm efeitos mais que terapêuticos e quem ouvir pode adormecer
rapidamente. — Belchior esclarece.
Imã
faz sinal para que Belchior fique quieto, ela tem medo de que o rouxinol fale
que encantou sua mãe. Certamente seu pai não gostaria de saber disso.
—
O que vocês querem exatamente?
Imã
suspira.
—
Pai, precisamos entrar, colocar a ciranda na mão do vô Táquio e deixar o
Belchior cantar até que ele retorne para essa realidade. — ela abre a bolsa
térmica.
Em
outro hospital, Carlito e Drica são surpreendidos com uma pequena confusão na
entrada, um casal mais agitado cobrava explicações. O tumulto atraiu curiosos
que atrapalham a circulação, enquanto os seguranças tentam organizar e abrir
passagem.
—
Vocês são uns irresponsáveis. Como podem ter perdido o meu filho? Cadê a
segurança, cadê as câmeras internas. Pra filmar o que não presta vocês servem.
Isso é uma pouca vergonha! — a mulher berrava indignada.
—
Cadê o diretor? Eu quero ele aqui agora. Tira a mão de mim, eu vou chamar a
polícia. Tenho vários amigos na polícia, vocês vão ver! — o homem também não
ficava calado.
Carlito
não consegue nenhuma informação, mas Drica o puxa para outro lado, ela
encontrou Renê.
—
Carlito, também ouvi que a polícia fechou o cruzamento da Avenida Brás de Pina
com a Estrada da Água Grande por causa de uma estranha criatura.
—
Caramba, legal ver vocês aqui. — Renê vai ao encontro da dupla.
—
Aqueles ali são seus pais? — Carlito aponta.
—
O que tá rolando aqui, Renê? — Drica fica curiosa.
—
Nem te falo, logo que acordei, a confusão já tava formada. Meus pais chegaram e
o Rui não tava na cama.
—
Como assim?
— Cara, o Rui desapareceu, sumiu!

M. P . Cândido
Elenco Imã vô Táquio Rei Gjorgy maga Cuca Tiana Rui Carlito Drica Tudão Cerol Renê Zara Ema Utah Sári Vento Participações Especiais Gualbe Beron Zebu Melo vó Nácia Tema Boom Boom Pow Intérprete The Black Eyed Peas
Carlos Mota
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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