5x01 - Noite de Lua Cheia
de Vicente de Melo
O
relógio cuco tocou exatamente 17h. Ouvindo os repetitivos barulhos de “cu-co!”,
“cu-co!”, Mozart acordou assustado. Numa raiva súbita, pensou em quebrar o
velho relógio. Porém, lembrou-se se tratar de uma peça de raro valor, trazida
de uma região montanhosa da Alemanha por seu bisavô, um velho pirata dos mares.
Desistiu, xingou um palavrão e sentiu as têmporas latejando. Sim, na mesma
rotina de quase todos os dias, após mais uma festa entre amigos regada a muita
bebida, chegou em casa ao amanhecer. Como sempre, dormira sem comer nada, pois
de tão bêbado, não aguentara nem ao menos tirar as roupas, os sapatos e tomar
um banho.
Com as
dores dilacerando seu crânio, ainda meio trôpego da ressaca, Mozart caminhou
para o banheiro, mijou, sentiu deleite e ânsia de vômito. Contraiu o estômago,
olhou-se no espelho e escovou os dentes. Saiu do banheiro, caminhou para a sala
e, antes de sentar-se no sofá, levou um grande susto. Um pássaro assomou de
dentro do velho relógio, passou rente à sua cabeça e saiu pela janela em um voo
rasante. A seguir, soltando mais uma vez um sonoro “cu-co!”, a pequena ave
despareceu entre as nuvens avermelhadas do início do crepúsculo banhando a
cidade.
No
mesmo instante, sem entender nada, Mozart soltou um grito.
— O que
foi isso, meu Deus? Será que estou sonhando?
Alguns
segundos depois, refazendo-se do susto, Mozart sentou-se no sofá, acendeu um
cigarro e esqueceu-se do cuco fugitivo. Coçou a cabeça, sorriu e lembrou-se do
encontro marcado com a bela mulher que conhecera na festa, sem dúvida alguma,
uma mulher misteriosa. No mesmo instante, brincando com a fumaça, começou a
falar em solilóquio.
— Mas
seria uma prostituta? Uma cigana? Uma bruxa? Nada disso, parecia mesmo uma
santa! Além, obviamente, do sorriso amável de Mona Lisa desenhado em seus
lábios grossos de pura lascívia. Mas as pessoas amáveis também não se
transformam em pessoas perigosas? Sim, quase sempre! Principalmente as mulheres
lindas, sensuais e sedutoras. Deixa para lá, pois o mais importante é não
faltar ao encontro e, com isso, passar uma noite de prazer em seus braços. Mas,
como era mesmo o seu nome? Ah, sim, Lenora! Lenora, a personagem morta do
célebre poema “O corvo”, de Edgar Allan Poe? Aliás, esse nome seria alguma
homenagem ao grande escritor estadunidense? Ou seria uma mera
coincidência?
Subitamente,
antes mesmo de procurar respostas para suas reflexões delirantes, o relógio
cuco tocou anunciando 18h. Mozart se assustou, soergueu o corpo e gritou mais
uma vez sem perceber.
— Meu
Deus, como o relógio tocou se o cuco não está mais lá? Será que estou ficando
louco? Será algum sintoma de “delirium tremens”? Não, não pode ser, pois eu
bebi ontem mesmo! Além do mais, os cucos
de relógios são de mentira!
Mesmo
sentindo-se bastante confuso, Mozart ignorou o relógio, coçou a cabeça e
levantou-se do sofá. Abriu o armário, pegou um comprimido e o engoliu para
livrar-se da dor de cabeça lancinante. Bebeu um pouco de água, fechou a porta e
saiu de casa rumo ao tão esperado encontro com a bela Lenora.
Na
calçada, em passos lentos e cheio de dúvidas, Mozart deambulou absorto entre a
profusão de luzes, cores, sons e pessoas azafamadas. Certa hora, assustou-se
com a sombra de um pássaro se projetando na parede de um prédio, parou e olhou
para cima. Não, não era o cuco, mas sim um enorme urubu preto-azulado passando
em um voo rasante. Coçou os olhos vermelhos usando as costas da mão, ignorou a
ave agourenta e continuou caminhando.
No
final da rua, Mozart entrou em um bar com aspecto de taverna medieval. Uma
babel de vozes misturava-se ao cheiro de frituras, suor, urina, álcool e fumaça
de cigarros. Encostou-se no balcão, acendeu um cigarro, pediu uma dose de vodca
e começou a observar o ambiente ao seu redor. Olhou para uma adolescente magra,
vestida de preto e mais lembrando uma noviça pálida. Sentada em um banco,
bebericando um coquetel de frutas e ouvindo música no aparelho celular de
última geração, as pernas da menina, sem alcançar o piso de cerâmica,
balançavam no ritmo musical. Ao lado dela, um velho apoiava-se em um
guarda-chuva preto, chupava um pirulito roxo e degustava um bom vinho sentindo
as gotículas rubras maculando seu cavanhaque grisalho.
Apesar
de achar os dois personagens estranhos, agora sentindo-se bem mais à vontade,
Mozart bebeu outra dose de vodca, acendeu outro cigarro e voltou a olhar para o
ambiente de paz, festa e muita alegria etílica. Uma hora depois, pagou a conta,
agradeceu ao dono e saiu do bar sem nenhuma pressa. Sentiu, mesmo sem se virar,
os olhares fulminantes da adolescente e do velho para o seu lado. Ignorou.
De
volta à rua, para sua surpresa, Mozart encontrou a cidade praticamente deserta,
onde apenas alguns cachorros notívagos fuçavam latas de lixo. Acelerou os
passos, passou por um beco escatológico e encontrou um mendigo pedindo esmolas
com a mão em concha. Parou, jogou uma moeda para o pária e olhou para cima
contemplando o brilho argênteo da lua cheia. Sim, era noite de lua cheia. Ao
mesmo tempo, lembrou-se de Lenora e, sem pestanejar, apressou os passos louco
para ter a bela mulher em seus braços. Sentiu-se, naquele momento, um homem de
sorte.
Finalmente,
após mais de meia hora caminhando, Mozart chegou ao local do encontro. Na praça
totalmente deserta, onde somente pombos asquerosos arrulhavam em busca de
alimentos sobre o gramado verde, parou, olhou de um lado para o outro e, sem
acreditar, deparou-se com uma bela mulher, nua em pelo, banhando-se nas águas
límpidas do chafariz iluminado por lâmpadas coloridas. Gotículas argênteas,
lambendo sensualmente sua pele imaculada, desciam suavemente pelo seu corpo
escultural, curvilíneo e lembrando uma deusa do Olimpo.
Diante
da cena inusitada, Mozart ficou atônito, tapou a boca com a mão e falou
abafando a voz.
—
Lenora? Meu Deus, que loucura!
Ainda
pasmo diante da cena inverossímil, Mozart aproximou-se, arqueou as sobrancelhas
e acenou para a mulher. Lenora, ao reconhecê-lo, saiu da água devagar, pulou a
mureta de cimento e, fazendo gestos sensuais, vestiu o roupão de seda que se
encontrava pendurado na ponta da espada de uma estátua equestre de algum herói
desconhecido. Falou sorrindo lascivamente.
— Eu
estava sentindo muito calor, sendo assim, resolvi tomar banho ao ar livre até
você chegar.
Mozart
concordou apenas acenando a cabeça. Lenora, por sua vez, mordeu o dedo
indicador sensualmente. Minutos depois, ambos seguiram de mãos dadas para o
carro estacionado do outro lado da praça.
Antes,
ao olhar para trás, Mozart assustou-se com a silhueta de um enorme gato preto
miando forte, pulando da estátua e desaparecendo entre as flores do jardim.
Lenora, por sua vez, sorriu mais uma vez diante da pusilanimidade do homem ao
seu lado.
Assim,
ao chegar no carro, sob o olhar curioso de Mozart, Lenora tirou o roupão sem
pudor, colocou o vestido vermelho sobre o corpo nu e calçou os sapatos também
vermelhos. Olhou-se no retrovisor, pintou os lábios com um batom vermelho,
ajeitou o cabelo e sentou-se no banco do motorista. Acelerou sem pressa para a
noite de amor.
No meio
do caminho, dirigindo devagar, de repente Lenora começou a falar sobre
filosofia, magia negra e alquimia medieval. A seguir, falou sobre as dúvidas,
os mistérios e, paradoxalmente, sobre a necessidade da morte. Mozart, por sua
vez, ouvia tudo calado, sem entender a razão do assunto tão macabro saindo da
boca daquela mulher de beleza encantadora. Mesmo assim, cheio de curiosidade,
entrou na conversa tentando emitir sua opinião.
— Mas,
Lenora, por que falar sobre morte? Por que não falar sobre amor?
—
Simples, querido, para falar de amor, não podemos esquecer a morte. Pois,
segundo Schopenhauer, o amor é a compensação da morte.
—
Schopenhauer, aquele filósofo pessimista, certo?
—
Certíssimo! Porém, eu gosto muito quando ele cita que quanto mais realização
pessoal houver, menor será a angústia da morte!
—
Realmente, trata-se de um pensamento profundo.
—
Aliás, neste momento eu estou pensando somente em mais uma realização pessoal.
Fingindo-se
de sonso, porém lisonjeado, Mozart perguntou sorrindo para a mulher.
— E,
por acaso, eu posso saber que realização é essa?
— Fazer
amor, muito amor com você!
Sendo assim, quase uma hora depois, os dois
amantes chegaram a um hotel de luxo localizado no centro da cidade, longe dos
olhares de curiosos, fofoqueiros e invejosos. Nas alturas do décimo quinto
andar, mesmo um pouco inseguro diante da figura misteriosa de Lenora, Mozart
sentiu-se o homem mais feliz do mundo. Aliás, sem trocadilho, sentiu-se
literalmente nas nuvens.
No
quarto do hotel, bebericando uma dose de uísque, ansioso e fumando muito,
Mozart esperou tentando controlar ao máximo o nervosismo. Seu corpo nu fremia
de ansiedade. Subitamente, sorrindo lascivamente, Lenora surgiu do banheiro
exibindo o belo corpo nu onde se destacava somente uma figa luzidia pendurada
em uma corrente dourada. Os longos cabelos negros, soltos e ainda molhados
batiam na sua bunda proeminente de perfeição indescritível. Sem hesitar,
sedentos de amor, ambos começaram a se beijar avidamente. Seus corpos nus se
entrelaçaram formando um só corpo sobre o lençol branco do colchão macio da
cama arredondada. Gemidos, gritos lascivos e frêmitos de gozo reverberavam pelo
aposento banhado pela penumbra. Dessa forma, os dois se amaram, até serem vencidos
pela lassidão, alcançando prazer, deleite e orgasmos mútuos. Sim, fora
realmente uma noite de um amor louco, visceral e misterioso sob a cumplicidade
da lua cheia banhado a cidade.
No
outro dia, ao amanhecer, Mozart acordou meio assustado, soergueu o corpo e
esfregou os olhos usando as costas da mão. Porém, relaxou ao olhar para Lenora,
já vestida, se maquiando diante do enorme espelho grudado na parede.
Levantou-se, espreguiçou-se e dirigiu-se sorrindo para a mulher.
— Bom
dia, meu amor!
— Bom
dia!
Após
beijar o pescoço de Lenora, Mozart entrou no banheiro, sentiu uma leve tontura
e escorou-se na parede esfregando os olhos com os dedos. Abriu os olhos,
livrou-se da vertigem efêmera e olhou-se no espelho. Para seu espanto, notou
dois pequenos furos no pescoço de onde brotaram filetes de sangue já quase
ressequidos. Com os lábios trêmulos, de esgar assustado, falou baixinho em
solilóquio.
— O que
é isso, meu Deus? Uma mordida? Um corte? Uma picada? Mas não, eu não senti nada
me incomodando em momento algum!
Mesmo
assustado, Mozart resolveu tomar um banho quente. Quase dez minutos depois,
dominando pela dúvida, saiu do banheiro apenas de toalha amarrada à cintura.
Porém, para sua surpresa, não encontrou mais Lenora. Sobre a cama redonda
restavam apenas os travesseiros, o roupão branco e o batom vermelho jazendo
sobre o lençol amarrotado.
Ainda
sem acreditar, Mozart coçou a cabeça, olhou atônito para o quarto vazio e
sentiu o vento sibilante lamber o seu rosto pálido de morte. Virou-se para o
lado, percebeu as cortinas afastadas e dirigiu-se para a janela aberta. Porém,
no meio do caminho, tropeçou em um pé de sapato vermelho jogado sobre o tapete
macio. Abaixou-se, segurou o objeto na mão e comprimiu os lábios. Antes de se
levantar, avistou um pedaço de papel preso debaixo do abajur sobre a mesa de
cabeceira. Pegou o pedaço de papel e, de mãos trêmulas, leu a mensagem fúnebre
escrita com batom vermelho em letras garrafais.
“FOI
MUITO BOM, MEU AMOR! A GENTE SE ENCONTRA NAS TREVAS!”
Sem
entender nada, Mozart se levantou meio tonto, dirigiu-se à janela e esfregou os
olhos usando as costas das mãos. Horrorizado, no lugar do sol, deparou-se com a
lua. Mas não, não a bela lua cheia, luzidia e sorridente. Mas, sim, uma lua
negra, fúnebre e de aspecto traiçoeiro no meio das nuvens densas. Sem ação,
paralisado e dominado pelo medo mórbido, olhou para baixo do prédio. Do lado
direito, viu um gato preto ziguezagueando sobre o muro de uma igreja. Do lado
esquerdo, posado sobre a cruz do campanário da mesma igreja, viu um enorme
pássaro negro exibindo um gesto obsceno.
No
mesmo instante, sentindo um calafrio percorrendo seu corpo, olhando para os
dois animais asquerosos parecendo o desafiar sem escrúpulos, Mozart soltou um
grito de desespero.
— O que
aconteceu, meu Deus? Será que estou vivendo um pesadelo?
Sem
nenhuma resposta, pensando no desaparecimento misterioso de Lenora, a amante
efêmera, Mozart sentiu o pescoço latejar bem mais forte. No mesmo instante,
assustou-se com um raio desafiador, silente e solitário riscando o negror do
céu.
Agora
ainda mais aterrorizado diante da solidão sepulcral, Mozart enxugou o suor da
testa pálida usando as costas da mão, fechou a janela e caminhou em passos
trôpegos de volta ao banheiro. Diante do espelho, fechou os olhos desolado,
comprimiu os lábios e sentiu uma morbidez súbita. Alguns segundos depois, ao
abrir os olhos, enxergou somente a escuridão tétrica, oca e sem vida. Passou as
mãos no rosto, esfregou de um lado para o outro e sentiu apenas suas formas,
mas nada de imagens. Olhou mais uma vez para o espelho confirmando a escuridão
funérea. Chorou desesperado.
Sem
saber o que fazer, impotente e dominado pelo torpor, Mozart voltou para o
quarto, deitou-se na cama em forma de feto e fechou os olhos. Tentou elucubrar,
refletir e entender a situação. Tudo em vão, pois seus pensamentos abandonaram
seu cérebro em ritmo célere.
Assim,
a última imagem surgindo na mente de Mozart fora de uma bela mulher voando pela
janela rumo à lua negra, escoltada por um pássaro negro, um gato preto alado,
uma adolescente com asas de anjo lembrando uma feira pálida de morte e um velho
segurando um guarda-chuva preto, sorrindo e chupando pirulito. Ou seriam todos
voando rumo às trevas? Nada de resposta diante de um mistério dantesco da
inverossimilhança.
A
zeladora idosa, usando um vestido vermelho, entrou no quarto mancando de uma
perna aleijada. Parou diante da porta, assoviou uma música nos lábios murchos e
olhou o ambiente de viés. Dirigiu-se à cama redonda, exibiu um sorriso
sarcástico e recolheu o monte de cinzas para dentro de um saco de lixo preto.
Ao se abaixar, uma bela figa luzidia, pendurado na corrente dourada em seu
pescoço sulcado, assomou-se de dentro do vestido. Um gato preto, trançando
entre suas pernas, ronronava demonstrando uma alegria imensurável. Lá fora, a
escuridão do céu anunciava uma tempestade. Pousado sobre a cruz do campanário
da igreja, em frente ao hotel, um urubu preto-azulado parecia vigiar a cidade
como um fiel escudeiro. Ao seu lado, um cuco parecia sorrir.
CAL - Comissão de Autores Literários
Suspense Music
Intérprete:
Gabriel Andrade Produções
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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